sexta-feira, 10 de maio de 2013

CLÁUDIO MONET


CLÁUDIO MONET 

     Na Paris do Segundo Império, lá por 1865, o Café Guerbois, na Avenida Clichy, é o centro de jovens intelectuais; escritores, literatos, músicos e artistas. Na saleta enfumaçada, entre uma xícara de café e um cálice de absinto, discute-se acaloradamente, anunciam-se idéias, revelam-se talentos, destroem-se ídolos do passado. O mais animado é o grupo dos jovens pintores: Degas, Renoir, Monet, Pissarro, Manet, que, por mais que sejam um diferente do outro, na expressão pictórica, acham-se todos acomunados em sustentar um novo gênero de pintura: o Impressionismo, a primeira e mais violenta revolução no campo artístico, contra os cânones tradicionais aprovados desde séculos. 
     O Impressionismo destes pintores não é, como se poderia pensar, uma forma de pintura esboçada em poucos traços, incompleta, que sugira, mais do que represente, uma idéia. Este gênero de impressionismo tem origens muito antigas, e já o praticavam os Gregos, no período helenista, pois deve seu encanto justamente à sua incompletidão, ao relampaguear de uma imagem que, retocada, perderia seu frescor de inspiração e se tornaria um rígido academicismo, por excessiva perfeição formal. 
     O Impressionismo francês, ao invés, é, antes de tudo, uma técnica. Adota-se o uso de cores puras e solares, tonalidades de rosa e azul, de verde brilhante, e não se emprega o preto, que obscurecia e empoeirava as obras do passado. É, além de uma técnica, uma concepção diferente da pintura: é a pintura em plein-air, ao ar livre, fora dos atelieres, à luz do sol, onde todo contorno é preciso e vibra com uma intensidade toda especial. 
     Os pintores dessa técnica deixam a cidade, procuram o verde dos prados, as águas lentas dos rios. Nasce, assim, a típica figura do artista que, com o cavalete de campo, o guarda-sol ou um chapéu de palha, para resguardar-se do sol, permanece horas e horas na contemplação da natureza e busca efeitos de luz insólitos para recriá-los, em sua tela, em pinceladas amplas e vivas, toda iluminada de céu e fulgurante vida. 
     O nome “Impressionismo” tem origem de um quadro de Monet, em 1872, intitulado justamente Impressão – Sol nascente. Na aurora ainda enfumaçada de nevoeiro, o disco solar, de um amarelo intenso, reflete-se nas águas do Sena e os poucos barcos aparecem negros, contra-luz. É um quadro sugestivo e quase ingênuo, em sua sumária representação, mas, observando-se seus contornos, à primeira vista indistintos, vêem-se os objetos tomarem formas e cores, a princípio apenas sugeridas e, depois, revelados pelo sol nascente. 
     Cláudio Monet é exatamente um dos chefes-escola do Impressionismo, ao qual permaneceu fiel durante toda sua vida, sem jamais desviar-se do caminho que se propunha prosseguir, amargurado, mas não vencido, pelas críticas acerbas, pela incompreensão, e muitas vezes, pela zombaria dos contemporâneos.
     Monet é um artista puro, um verdadeiro Impressionista, um incansável pesquisador de efeitos de luz, de ondulações de ramos, sobretudo de reflexos de água. Nascido em 1840, em Paris, de uma família de comerciantes de Lê Havre, Cláudio Monet começou desde menino a desenhar caricaturas, que expunha na vitrina de um livreiro de Le Havre, junto ao qual ficava horas inteiras, observando certas gravuras japonesas de cores; aquelas estampas japonesas ficariam para sempre como uma de suas paixões, e delas ele faria, em seguida, uma coletânea de grande valor. 
     O pintor Boudin viu, um dia, as caricaturas, encorajou-o a continuar e levou-o consigo para pintar ao ar livre. Um mundo de luz, que, variando continuadamente, muda de hora em hora, uma folha, um tronco, um espelho de água, revela-se, então, aos olhos do entusiasta aluno. À voz pacata de Boudin, torna-se intérprete da natureza, com observações e conselhos que mais o aproximam do encanto dessa perene mudança; a sua já vigilante sensibilidade artística, e a intuição, o socorrem onde falta a técnica. Em 1857, com apenas dezesseis anos, Monet expõe, com Boudin, seu primeiro quadro, em Ruão: uma paisagem que, ainda que inobservada, é já uma etapa e ao mesmo tempo o ponto de partida para tentar novas descobertas pictóricas. 
     A família, porém, está descontente com esta vocação pela arte e desejaria que o filho único seguisse uma carreira mais interessante e lucrativa, tanto que, no momento de partir para o serviço militar, o pais oferece-se, como então se usava, para encontrar-lhe um substituto, desde que renuncie à pintura. Cláudio recusa e parte regularmente; é enviado para a Argélia, num batalhão de Caçadores da África, mas, antes de vencer os dois anos, deve regressar à pátria, porque sua saúde não agüentava o clima nem a vida militar. 
     A família permite-lhe, então, ir a Paris, desde que freqüente uma regular escola de pintura. Vemo-lo, assim, em 1862, no atelier de Gleyre, onde seu espírito rebelde não resiste muito; ale se faz uma imitação da verdade, isto é, limitam-se a copiar, formalmente, o modelo, e Monet já progredira bastante por conta própria, para continuar preso a Gleyre. É deste período a amizade com Renoir, Bazille e Sisley, os futuros Impressionistas, aos quais mais tarde se juntaria também Degas. 
     No ano seguinte, em 1863, Monet vê uma exposição de catorze telas de Manet, pintor de vanguarda, e por elas fica encantado; encontrara, realizados, os problemas de luz que o atormentavam, e proclama a grandeza de Manet, de quem se tornará, a seguir, fraterno amigo. 
     Em 1865, duas marinhas de Monet são aceitas no “Salon” e, no ano seguinte, o nome do pintor é citado nas revistas de crítica, quando expõe, ainda no “Salon”, sua Camilla (A dama do vestido verde), o retrato daquela que se tornará, depois, sua esposa. Contemporânea Camilla é a celebérrima Almoço na selva, uma tela que custou ao pintor trabalhos e incertezas, porque, no momento de expô-la, desorientado por algumas críticas do pintor Coubert, não mais lhe agradou e deixou-a enrolada, em um sótão. 
     Olhando-a de novo, meses após, achou-a deteriorada nas partes laterais, mas o centro conservava uma frescura de cores inigualáveis: em um grande prado, após o almoço ao ar livre, um grupo de senhoras e cavalheiros conversam despreocupadamente. Os trajes das mulheres, o verde das árvores, a luz difusa, formam uma composição excepcional, que provocou, no público, impressões opostas de espanto, de admiração, de zombaria, porque fugia a todos os cânones tradicionais da pintura. 
     Os anos seguintes seriam, para Monet, um doloroso tributo à arte. Atravessaria penosas alternativas de recusas e admissões ao “Salon”, mas seu nome, mesmo na brejeira ironia de certos críticos, já não é mais o de um desconhecido. Dinâmico, e impelido sempre pelo desejo de novos assuntos para conhecer e retrata, Monet movimenta-se de país em país. 
     Durante a guerra franco-prussiana, em 1870, para fugir à invasão tudesca, abriga-se na Holanda, onde esquece os horrores do conflito, encontrando, nas extensões floridas de tulipas, as cores de suas prediletas gravuras japonesas, e os quadros desse período, coloridíssimos, deslumbrantes de luz, relembram as primeiras exóticas fontes de sua inspiração. 
     Da Holanda à Inglaterra, as lentas águas do Tamisa recordam-lhe, talvez, o Sena, e Monet não se cansa de retratar as pontes de Londres, as embarcações que desfilam preguiçosos, no leve nevoeiro: a série das paisagens londrinas está toda em cores tênues e pastosas, penetradas de melancolia, e diferencia-se algo de sua pintura luminosa e serena, mesmo assinalando o mais alto grau de fluidez impressionística.

     A saudade da cidade de sua infância o leva de novo para Le Havre. Os recifes a pique, sobre um mar de chumbo perenemente enfurecido, oferecem-lhe novos temas para pintar vastas marinhas, dramáticas, fervilhantes de espumas. Em 1884, encontramos Cláudio Monet em Bordighera; para o pintor, o Mar Mediterrâneo possui um aspecto encantado: as luzes difundem-se violentas, sem meias tintas, exaltam-no e o esgotam ao mesmo tempo, porque lhe parece impossível levar de novo às telas tanta refulgência de cores. 
     Em 1883, Monet tinha adquirido uma casa de campo, com um amplo jardim, em Giverny, perto de Vernon, no vale do Sena, e ali se estabelece, todo só, dedicando-se exclusivamente à pintura. O primeiro pensamento do artista é mandar construir amplas e moderníssimas estufas para suas flores prediletas. Desse eremitério mergulhado no verde, o pintor não mais se afastará, a não ser por breves viagens, isto é, quando o invade a saudade do Mediterrâneo, ou de Paris, dos amigos dos velhos tempos. 
     Ali, em uma imensa paz, ele inicia a série das produções diversas, sobre um único tema: a catedral de Ruão, vista sob todas as mutações possíveis de luz e de perspectivas, os choupos do Sena, compridos, prateados, sob um céu altíssimo, e, última tarefa, as ninféias. No jardim de Giverny, há uma lagoa circundada de árvores: sobre a água, macias e cândidas, flutuam as ninféias, que pela suas tintas branco-rosadas, refletidas na água escura, sugerem a Monet, sempre, novas composições, que foram o último motivo de sua inspiração. Delas fez doze grandes telas, fluidas, vivas, que encantam pela sua carnosa beleza de flor. 
     No silêncio de Giverny, o pintor revive todas as etapas de sua longa vida, os lampejos e as intuições da juventude, as amarguras e seu progressivo sucesso. Sente-se, ainda, a bordo de seu barco-atelier, enquanto desliza pelas águas mansas do Sena, ou, fustigado pelo vento, nos escolhos de Belle-Île. A glória chegara, finalmente, mas que desgaste, que incessante esforço de uma vida inteira! Agora, ele se encontra solitário e cansado. Seus olhos, tão vigilantes para colher toda mudança de luz, apagam-se a pouco e pouco, em uma cegueira quase total, até que a morte, benévola, o surpreende em 5 de dezembro de 1926. 

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